Cena 1: Em Porto Alegre, na calada de uma noite fria e úmida, mais de 200 soldados da Brigada Militar (incluindo Batalhão de Choque e Cavalaria) foram mobilizados para extirpar de forma "rápida e cirúrgica" um perigosíssimo "ninho de vândalos/baderneiros/terroristas" formado por... Nada mais do que 30 ativistas (em sua maioria, jovens e estudantes) acampados de modo ordeiro e pacífico em uma área pública nos arredores da Usina do Gasômetro, como uma forma de manifestação igualmente pacífica contra a derrubada de mais de 110 árvores existentes na região da Avenida Beira-Rio a fim de dar continuidade às obras de duplicação da Avenida Loureiro da Silva, uma das obras previstas para a Copa do Mundo 2014. A "cirurgia de extração" aconteceu de forma extremamente covarde e arbitrária, sem anestesia mas com bastante truculência, com a expulsão e prisão de vários manifestantes.
Quantas copas ainda terão que ser sacrificadas para que uma Copa seja feita?
Em uma operação "rápida e cirúrgica",
ativistas e manifestantes pacíficos são extirpados à força.
Cena 2: alegando não haver mais "clamor social em torno do caso" nem "evidência de crueldade nem hediondez extremas por parte dos envolvidos", os quatro homens envolvidos no incêndio da boate Kiss, em Santa Maria, são postos em liberdade provisória, para desespero e indignação de toda uma cidade que ainda chora a morte de 242 jovens vítimas de uma tragédia anunciada que ainda deixou um rastro de muitas outras vidas destroçadas para sempre, seja por conta das sequelas e cicatrizes com as quais os sobreviventes terão que conviver pelo resto da vida ou por conta da luto e da saudade eternos dos pais, mães, irmãos, maridos/esposas, namorados/namoradas e amigos que perderam o seu ente querido.
Se as lembranças dolorosas de um cidade em luto não constitui "clamor social" o bastante
pra manter os criminosos responsáveis presos... Quem sabe uma série de protestos ajuda a Justiça a enxergar direito?
Deixe-me ver se eu entendi: dois empresários da noite, sócios e proprietários de uma casa noturna que fora reformada com o que havia de mais inferior em material de isolamento acústico (escolhido a dedo para "reduzir custos") e dois músicos de uma banda que usou um artefato pirotécnico inadequado para uso interno, mesmo sabendo dos riscos a que estavam sujeitos (porque era "mais barato" do que o artefato correto)... Se o resultado desta economia burra e irresponsável deliberadamente assumida, que custou a vida de 242 pessoas, não é "evidência de crueldade e hediondez extremas por parte dos envolvidos", o que deverá ser então?
E assim, termina mais um feriado de Corpus Christi... Um feriado que termina com a justiça brasileira erguendo a clava forte para bater na cabeça dos que lutam por cidades com mais qualidade de vida e dignidade para todos os que nelas habitam e também dilacerar ainda mais os corações das famílias e dos amigos que ainda lutam para que a morte de seus queridos não tenha sido em vão.
Mas os filhos desta Pátria-mãe gentil não fogem à luta e não temem nada e nem à morte. E muito lutaremos ainda para fazer valer a verdadeira Justiça, aquela que um dia nos ensinaram que atende à todos, sem distinção de classe, raça e convicções e que age e pune igualmente a todos os crimes, tenham eles "clamor social" ou não. E hoje peço que o corpo de Cristo, homenageado hoje, nos dê força e sabedoria para enfrentar as muitas batalhas que ainda virão em nome desta Justiça...




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