domingo, 26 de maio de 2013

Antiguidade e Idade Média – Arte a Serviço da Virtude



    O Livro III de A República, de Platão e os capítulos I a XII do livro A Poética, de Aristóteles tentam estabelecer algumas regras a serem seguidas pelos artistas e poetas da Antiguidade greco-romana, como uma espécie de “Manual de Estilo” que regeriam a criação artística e literária da época. Ambos os filósofos descrevem a respeito da arte da imitação (a mimesis), tendo como ponto de partida a arte narrativa e seus diversos estilos, como a epopeia, a tragédia e a comédia. Para Platão, a arte narrativa, assim como a música, tem como principal objetivo afastar os jovens dos vícios e dos maus hábitos e educa-los para a virtude, a moderação e o autodomínio dos quais eles irão necessitar no momento em que serão os futuros guardiões da cidade. Ao levar em contar o fato de que tudo que os cidadãos aprendem desde a mais tenra infância, através do hábito da imitação de tudo que os rodeia, pode influenciar a personalidade e o caráter por toda a sua vida, o ideal platoniano determina que tudo o que pode levar a juventude ao vício, à indolência, à covardia e à crueldade sejam censurados da criação e narração dos mitos, fazendo com que apenas os bons valores éticos e morais que devem reger a sociedade sejam assim transmitidos através da arte. Aristóteles, em sua Poética, se concentra em descrever a poesia como a verdadeira arte da cópia ou imitação da realidade, onde o objetivo do artista é criar ou fantasiar baseado em sua percepção do mundo real, bem como descrever o modo como as poesias e narrativas podem diferenciar-se umas das outras conforme três fatores: o meio (que se dá através do ritmo, do canto e da métrica), o objeto (se pode se caracterizar como tragédia ou comédia) e o modo (que pode ser narrativo, dramático ou um misto dos dois). Aristóteles nos diz que o poder de imitação é inato ao ser humano, o que faz com que os homens tenham prazer ao imitar tudo o que há ao seu redor e assim aprendem e descrevem aos seus semelhantes tudo o que viram e sentiram ao longo da vida, originando assim a criação da poesia, ainda que de forma tosca e improvisada, a fim de suprir a necessidade de transmitir seus conhecimentos e sentimentos. Cada uma das formas de imitação possui diferenças entre si, no qual o objeto da imitação se divide entre a tragédia (que apresenta as ações de homens de grande valor e caráter, exaltando suas virtudes e seus feitos) e a comédia (que apresenta as ações dos homens de baixo valor e caráter, a fim de expor suas falhas e vícios, levando-os ao ridículo). O modo como a poesia imitativa é apresentada também possui variações, que se caracterizam como narrativas (quando a voz do narrador é a que predomina), dramáticas (quando predominam as vozes e ações dos personagens), podendo haver também uma forma mista destes dois modos de imitação, onde a figura do narrador e dos personagens atuam em conjunto. Em contraste com as regras estabelecidas por Platão, a arte imitativa (representada pela tragédia) segundo as ideias aristotélicas tinha como objetivo fazer aflorar as virtudes e os bons sentimentos existentes na alma dos homens através do terror e da piedade causados pela ação dramática, purificando seus espectadores através da catarse. Apesar de algumas diferenças em relação à forma ou à temática das obras, os dois filósofos tinham em comum o conceito de que a arte, mais do que uma simples imitação da realidade, tem a função de ensinar, edificar e reforçar na mente e no coração dos seres humanos os bons sentimentos, as virtudes e os princípios morais que regem o bom funcionamento da sociedade.
    Erwin Panofsky, em seu texto referente aos conceitos estéticos da Antiguidade greco-romana, nos apresenta a ideia de que a obra artística, seja uma pintura ou uma escultura, tem origem não apenas do objeto real que esta obra representa, como também do espírito do artista, no qual esta já se encontra pré-existente. Mais do que apenas imitar ou representar a realidade dos objetos e dos seres, a obra guarda em si a função de trazer à tona os sentimentos mais sublimes do espírito humano; dentro deste conceito, o artista não é mais um mero imitador do mundo real, naquilo que este possui de trivial, nem um simples intérprete sujeito a rígidas normas pré-estabelecidas, mas sim o indivíduo cujo espírito cultiva um modelo prestigioso de beleza para o qual o seu olhar interior está voltado, devendo assim revelar uma beleza o mais próxima possível da perfeição idealizada pelos seus mais sublimes pensamentos, ainda que nem sempre este modelo de perfeição total nem sempre possa ser transmitida à obra no momento da criação. Dentro deste mesmo conceito, a arte e o artista passaram a ser cada vez mais estimados pelas sociedades grega e romana, passando a figurar como personalidades superiores, cujo talento era guiado e protegido pelos deuses, bem como também começaram a ser desenvolvidos e valorizados os conhecimentos dos primeiros críticos da arte. Ainda assim, havia o conceito de Platão onde as “artes miméticas” deveriam estar a serviço do bom, do belo e do virtuoso em detrimento da liberdade e da originalidade artística, tendo como contrapartida o conceito artístico de Filóstrato, onde a arte deveria ter autonomia em relação às aparências e imperfeições da realidade. À medida que se fazia da arte um objeto de reflexão, percebe-se uma contradição da obra de arte em sim: se por um lado ela era inferior à natureza por ser considerada uma simples imitação desta, por outro ela se apresentava como superior à natureza, uma vez que a obra pudesse corrigir as falhas e as imperfeições do mundo real, opondo-se assim de forma independente e gerando uma imagem renovada da beleza, fazendo-a mais verdadeira do que a realidade. Assim, o pensamento da Antiguidade em relação à mimesis era de que o artista não deveria ser apenas um mero copiador da natureza, mas também o seu agente corretivo e criador, podendo exercer seu poder com plena independência.
    Já em seu texto que discorre a respeito dos conceitos artísticos da Idade Média, Panofsky nos apresenta a ideia de que, em cada manifestação do belo, há outra beleza imediatamente superior a esta, de modo que a beleza visível é o reflexo de uma beleza invisível que, por sua vez reflete a absoluta beleza. Na concepção de Santo Agostinho, a arte contempla um tipo de beleza que, longe de pertencer apenas aos objetos e à natureza para posteriormente ser imitada, pertence também ao espírito do artista que transfere esta beleza, para sua obra; mas ao mesmo tempo, esta beleza visível produzida pelo artista é uma parcela da beleza invisível e divina, sendo assim um mediador entre Deus e o mundo material. Este conceito nada mais é do que uma adaptação de Agostinho dos ideais do Neoplatonismo, onde o espírito impessoal deste foi substituído pela visão de Deus instituída pelo Cristianismo, sendo assim decisivo para estabelecer uma concepção de arte que se estenderia para toda a Idade Média. As realizações do espírito humano, que eram legitimadas pela Ideia e justificavam o conhecimento, a conduta e a sensibilidade, eram regidas por um Deus que criou o mundo de acordo com a Sua razão, cuja singularidade própria sobre as diferentes coisas e diferentes essências eram resultantes da consciência e do pensamento divino. Ao mesmo tempo, temos as três questões principais emitidas por Mestre Eckart, sendo também resolvidas por Agostinho: a primeira é saber se as Ideias estão com Deus ou se pré-existem nele as imagens das coisas a serem criadas; a segunda é saber se existem várias Ideias ou apenas uma; e a terceira é saber se Deus só pode conhecer as coisas através das Ideias. Assim, produzir as Ideias, bem como abriga-las tornou-se uma espécie de privilégio divino, onde as imagens produzidas e encerradas em Deus são antes o objeto de uma visão mística do que de um conhecimento lógico ou de uma criação representativa.

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