O Livro III de A República, de Platão e os capítulos I a XII do livro A Poética, de Aristóteles tentam
estabelecer algumas regras a serem seguidas pelos artistas e poetas da
Antiguidade greco-romana, como uma espécie de “Manual de Estilo” que regeriam a
criação artística e literária da época. Ambos os filósofos descrevem a respeito
da arte da imitação (a mimesis),
tendo como ponto de partida a arte narrativa e seus diversos estilos, como a
epopeia, a tragédia e a comédia. Para Platão, a arte narrativa, assim como a
música, tem como principal objetivo afastar os jovens dos vícios e dos maus
hábitos e educa-los para a virtude, a moderação e o autodomínio dos quais eles
irão necessitar no momento em que serão os futuros guardiões da cidade. Ao
levar em contar o fato de que tudo que os cidadãos aprendem desde a mais tenra
infância, através do hábito da imitação de tudo que os rodeia, pode influenciar
a personalidade e o caráter por toda a sua vida, o ideal platoniano determina
que tudo o que pode levar a juventude ao vício, à indolência, à covardia e à
crueldade sejam censurados da criação e narração dos mitos, fazendo com que
apenas os bons valores éticos e morais que devem reger a sociedade sejam assim
transmitidos através da arte. Aristóteles, em sua Poética, se concentra em descrever a poesia como a verdadeira arte
da cópia ou imitação da realidade, onde o objetivo do artista é criar ou
fantasiar baseado em sua percepção do mundo real, bem como descrever o modo
como as poesias e narrativas podem diferenciar-se umas das outras conforme três
fatores: o meio (que se dá através do ritmo, do canto e da métrica), o objeto
(se pode se caracterizar como tragédia ou comédia) e o modo (que pode ser
narrativo, dramático ou um misto dos dois). Aristóteles nos diz que o poder de
imitação é inato ao ser humano, o que faz com que os homens tenham prazer ao
imitar tudo o que há ao seu redor e assim aprendem e descrevem aos seus
semelhantes tudo o que viram e sentiram ao longo da vida, originando assim a
criação da poesia, ainda que de forma tosca e improvisada, a fim de suprir a
necessidade de transmitir seus conhecimentos e sentimentos. Cada uma das formas
de imitação possui diferenças entre si, no qual o objeto da imitação se divide
entre a tragédia (que apresenta as ações de homens de grande valor e caráter,
exaltando suas virtudes e seus feitos) e a comédia (que apresenta as ações dos
homens de baixo valor e caráter, a fim de expor suas falhas e vícios,
levando-os ao ridículo). O modo como a poesia imitativa é apresentada também
possui variações, que se caracterizam como narrativas (quando a voz do narrador
é a que predomina), dramáticas (quando predominam as vozes e ações dos
personagens), podendo haver também uma forma mista destes dois modos de
imitação, onde a figura do narrador e dos personagens atuam em conjunto. Em
contraste com as regras estabelecidas por Platão, a arte imitativa (representada
pela tragédia) segundo as ideias aristotélicas tinha como objetivo fazer
aflorar as virtudes e os bons sentimentos existentes na alma dos homens através
do terror e da piedade causados pela ação dramática, purificando seus
espectadores através da catarse. Apesar de algumas diferenças em relação à
forma ou à temática das obras, os dois filósofos tinham em comum o conceito de
que a arte, mais do que uma simples imitação da realidade, tem a função de
ensinar, edificar e reforçar na mente e no coração dos seres humanos os bons
sentimentos, as virtudes e os princípios morais que regem o bom funcionamento
da sociedade.
Erwin Panofsky, em seu texto
referente aos conceitos estéticos da Antiguidade greco-romana, nos apresenta a
ideia de que a obra artística, seja uma pintura ou uma escultura, tem origem
não apenas do objeto real que esta obra representa, como também do espírito do
artista, no qual esta já se encontra pré-existente. Mais do que apenas imitar
ou representar a realidade dos objetos e dos seres, a obra guarda em si a
função de trazer à tona os sentimentos mais sublimes do espírito humano; dentro
deste conceito, o artista não é mais um mero imitador do mundo real, naquilo
que este possui de trivial, nem um simples intérprete sujeito a rígidas normas
pré-estabelecidas, mas sim o indivíduo cujo espírito cultiva um modelo
prestigioso de beleza para o qual o seu olhar interior está voltado, devendo
assim revelar uma beleza o mais próxima possível da perfeição idealizada pelos
seus mais sublimes pensamentos, ainda que nem sempre este modelo de perfeição
total nem sempre possa ser transmitida à obra no momento da criação. Dentro
deste mesmo conceito, a arte e o artista passaram a ser cada vez mais estimados
pelas sociedades grega e romana, passando a figurar como personalidades
superiores, cujo talento era guiado e protegido pelos deuses, bem como também
começaram a ser desenvolvidos e valorizados os conhecimentos dos primeiros
críticos da arte. Ainda assim, havia o conceito de Platão onde as “artes
miméticas” deveriam estar a serviço do bom, do belo e do virtuoso em detrimento
da liberdade e da originalidade artística, tendo como contrapartida o conceito
artístico de Filóstrato, onde a arte deveria ter autonomia em relação às
aparências e imperfeições da realidade. À medida que se fazia da arte um objeto
de reflexão, percebe-se uma contradição da obra de arte em sim: se por um lado
ela era inferior à natureza por ser considerada uma simples imitação desta, por
outro ela se apresentava como superior à natureza, uma vez que a obra pudesse
corrigir as falhas e as imperfeições do mundo real, opondo-se assim de forma
independente e gerando uma imagem renovada da beleza, fazendo-a mais verdadeira
do que a realidade. Assim, o pensamento da Antiguidade em relação à mimesis era de que o artista não deveria
ser apenas um mero copiador da natureza, mas também o seu agente corretivo e
criador, podendo exercer seu poder com plena independência.
Já em seu texto que
discorre a respeito dos conceitos artísticos da Idade Média, Panofsky nos
apresenta a ideia de que, em cada manifestação do belo, há outra beleza
imediatamente superior a esta, de modo que a beleza visível é o reflexo de uma
beleza invisível que, por sua vez reflete a absoluta beleza. Na concepção de
Santo Agostinho, a arte contempla um tipo de beleza que, longe de pertencer
apenas aos objetos e à natureza para posteriormente ser imitada, pertence
também ao espírito do artista que transfere esta beleza, para sua obra; mas ao
mesmo tempo, esta beleza visível produzida pelo artista é uma parcela da beleza
invisível e divina, sendo assim um mediador entre Deus e o mundo material. Este
conceito nada mais é do que uma adaptação de Agostinho dos ideais do
Neoplatonismo, onde o espírito impessoal deste foi substituído pela visão de
Deus instituída pelo Cristianismo, sendo assim decisivo para estabelecer uma
concepção de arte que se estenderia para toda a Idade Média. As realizações do
espírito humano, que eram legitimadas pela Ideia e justificavam o conhecimento,
a conduta e a sensibilidade, eram regidas por um Deus que criou o mundo de
acordo com a Sua razão, cuja singularidade própria sobre as diferentes coisas e
diferentes essências eram resultantes da consciência e do pensamento divino. Ao
mesmo tempo, temos as três questões principais emitidas por Mestre Eckart,
sendo também resolvidas por Agostinho: a primeira é saber se as Ideias estão
com Deus ou se pré-existem nele as imagens das coisas a serem criadas; a
segunda é saber se existem várias Ideias ou apenas uma; e a terceira é saber se
Deus só pode conhecer as coisas através das Ideias. Assim, produzir as Ideias,
bem como abriga-las tornou-se uma espécie de privilégio divino, onde as imagens
produzidas e encerradas em Deus são antes o objeto de uma visão mística do que
de um conhecimento lógico ou de uma criação representativa.