quinta-feira, 30 de maio de 2013

"Mas ergues a Justiça a clava forte"...

Final de maio de 2013, em meio aos dias frios e cinzentos deste outono...

Cena 1: Em Porto Alegre, na calada de uma noite fria e úmida, mais de 200 soldados da Brigada Militar (incluindo Batalhão de Choque e Cavalaria) foram mobilizados para extirpar de forma "rápida e cirúrgica" um perigosíssimo "ninho de vândalos/baderneiros/terroristas" formado por... Nada mais do que 30 ativistas (em sua maioria, jovens e estudantes) acampados de modo ordeiro e pacífico em uma área pública nos arredores da Usina do Gasômetro, como uma forma de manifestação igualmente pacífica contra a derrubada de mais de 110 árvores existentes na região da Avenida Beira-Rio a fim de dar continuidade às obras de duplicação da Avenida Loureiro da Silva, uma das obras previstas para a Copa do Mundo 2014. A "cirurgia de extração" aconteceu de forma extremamente covarde e arbitrária, sem anestesia mas com bastante truculência, com a expulsão e prisão de vários manifestantes.

Quantas copas ainda terão que ser sacrificadas para que uma Copa seja feita?

Em uma operação "rápida e cirúrgica", 
ativistas e manifestantes pacíficos são extirpados à força.

Cena 2: alegando não haver mais "clamor social em torno do caso" nem "evidência de crueldade nem hediondez extremas por parte dos envolvidos", os quatro homens envolvidos no incêndio da boate Kiss, em Santa Maria, são postos em liberdade provisória, para desespero e indignação de toda uma cidade que ainda chora a morte de 242 jovens vítimas de uma tragédia anunciada que ainda deixou um rastro de muitas outras vidas destroçadas para sempre, seja por conta das sequelas e cicatrizes com as quais os sobreviventes terão que conviver pelo resto da vida ou por conta da luto e da saudade eternos dos pais, mães, irmãos, maridos/esposas, namorados/namoradas e amigos que perderam o seu ente querido. 
Se as lembranças dolorosas de um cidade em luto não constitui "clamor social" o bastante 
pra manter os criminosos responsáveis presos... Quem sabe uma série de protestos ajuda a Justiça a enxergar direito?


Deixe-me ver se eu entendi: dois empresários da noite, sócios e proprietários de uma casa noturna que fora reformada com o que havia de mais inferior em material de isolamento acústico (escolhido a dedo para "reduzir custos") e dois músicos de uma banda que usou um artefato pirotécnico inadequado para uso interno, mesmo sabendo dos riscos a que estavam sujeitos (porque era "mais barato" do que o artefato correto)... Se o resultado desta economia burra e irresponsável deliberadamente assumida, que custou a vida de 242 pessoas, não é "evidência de crueldade e hediondez extremas por parte dos envolvidos", o que deverá ser então? 
  
E assim, termina mais um feriado de Corpus Christi... Um feriado que termina com a justiça brasileira erguendo a clava forte para bater na cabeça dos que lutam por cidades com mais qualidade de vida e dignidade para todos os que nelas habitam e também dilacerar ainda mais os corações das famílias e dos amigos que ainda lutam para que a morte de seus queridos não tenha sido em vão. 
Mas os filhos desta Pátria-mãe gentil não fogem à luta e não temem nada e nem à morte. E muito lutaremos ainda para fazer valer a verdadeira Justiça, aquela  que um dia nos ensinaram que atende à todos, sem distinção de classe, raça e convicções e que age e pune igualmente a todos os crimes, tenham eles "clamor social" ou não. E hoje peço que o corpo de Cristo, homenageado hoje, nos dê força e sabedoria para enfrentar as muitas batalhas que ainda virão em nome desta Justiça...
  

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Sobre Roberto Civita e Anos Rebeldes

Saudações a todos!


    Nada como um post novo, com uns assuntos interessantes, pra começar a semana, não é mesmo?
    Começo falando um pouco a respeito de um dos assuntos que a mídia brasileira comentou quase que à exaustão neste domingo... Não, não, meus queridos! Sobre a saída do Neymar do futebol brasileiro para jogar em terras espanholas, acredito que existem pessoas bem mais conhecedoras das regras e dos meandros que regem o esporte trazido da Inglaterra (e atual paixão brasileira) e bem mais experientes para falar disso do que esta aprendiz de redatora-e-blogueira colorada convicta, cujos conhecimentos futebolísticos só se resumem ao fato de saber que existem 11 marmanjos de cada lado disputando a vez de enfiar uma única bola dentro de uma rede.
    O assunto a que me refiro é sobre a morte de um dos mais importantes barões da mídia brasileira, o Sr. Roberto Civita. Presidente do Grupo Abril, criador de várias revistas atualmente ainda em circulação, como Quatro Rodas (1960), Cláudia (1961), Realidade (1966), Exame (1967) e Veja (1968), sendo também editor-chefe desta última até praticamente o final da sua vida. Sobre este empresário admirado por vários profissionais da comunicação brasileira por conta de sua luta pela democracia e pela liberdade de expressão (ainda que por vias pra lá de duvidosas) e odiado por outro tanto de pessoas em virtude do seu posicionamento extremamente conservador e elitista, escancaradamente demonstrado pela linha editorial das publicações do Grupo Abril, apenas tenho a seguinte opinião neste momento: por mais escroque que o Sr. Civita tenha sido nesta vida, por piores que tenham sido suas atitudes pessoais e profissionais e por mais tendenciosos e intragáveis que sejam os produtos midiáticos e editoriais produzidos por sua holding... É inquestionável a contribuição que ele deu à imprensa deste país, produzindo importantes revistas que são referências nacionais para os mais diversos assuntos, como a Quatro Rodas, a Exame e a Cláudia, bem como a extinta Realidade, considerada uma das mais inovadoras revistas que a imprensa brasileira já viu, lá nos idos dos anos 60-70, em termos de jornalismo e design gráfico. E vamos combinar que não é qualquer pessoa que constrói uma trajetória tão significativa como essa, não é vero? 

Enfim, que o Sr. Roberto Civita descanse em paz no mundo espiritual, amém... 
Porque aqui na Terra o pessoal vai continuar descendo o sarrafo na Veja mesmo! 
     
    E em tempos de começo de outra novela das 9 no horário nobre... A qual estou impossibilitada de acompanhar por conta das aulas da faculdade no Instituto de Artes da UFRGS, resta-me apenas acompanhar o começo de outra boa novela (tá, não é bem assim uma novela, mas uma minissérie) no canal Viva: a reprise de Anos Rebeldes, uma das melhores minisséries que a TV Globo já produziu. Com uma história ambientada nos anos de 1964 aos anos 70, que foram os anos de ditadura militar no Brasil, o enredo traz à tona os vários acontecimentos históricos e culturais que aconteceram no país durante aquela bela e triste época, sob a visão de um jovem e apaixonado casalzinho formado por um rapaz idealista e uma moça, digamos assim, individualista; apesar das diferenças de opinião e visão de mundo que eles tinham entre si (ele, ativista do Movimento Estudantil e ela, apenas uma jovem querendo apenas cuidar de sua vida e ficar o mais longe possível de encrenca), os dois personagens tinham um amor tão profundo um pelo outro que nem mesmo a separação causada pelo fato deles acabarem trilhando caminhos diferentes na vida foi capaz de apagar do coração de ambos. E como fã ardorosa da minissérie que sou, posso dizer que toda o enredo de Anos Rebeldes fala de amor, de um jeito ou de outro: seja o amor romântico (Eros) que existe entre os casais da trama, o amor fraternal e idealístico (Ágape) pela Pátria, pelos excluídos e/ou pela Humanidade, movido pelo qual os estudantes e ativistas da época lutaram contra a opressão e as arbitrariedades do regime militar ou o amor pela cultura e pela busca do conhecimento (Filos) que levava cientistas, artistas e personalidades daqueles tempos tão turbulentos a encontrar novas respostas e novos caminhos para antigos problemas que até hoje nos atormentam. E assim, aos muitos trancos e barrancos, o mais nobre dos sentimentos humanos sobrevive com toda a sua força, nos mostrando que não há tanque ou canhão do Exército, repressão ou luta armada que o faça diminuir ou morrer!


Tão grandes as diferenças e tão difíceis os tempos para viver tão grande amor!
 
    Abraços a todos... E até a próxima!

domingo, 26 de maio de 2013

Antiguidade e Idade Média – Arte a Serviço da Virtude



    O Livro III de A República, de Platão e os capítulos I a XII do livro A Poética, de Aristóteles tentam estabelecer algumas regras a serem seguidas pelos artistas e poetas da Antiguidade greco-romana, como uma espécie de “Manual de Estilo” que regeriam a criação artística e literária da época. Ambos os filósofos descrevem a respeito da arte da imitação (a mimesis), tendo como ponto de partida a arte narrativa e seus diversos estilos, como a epopeia, a tragédia e a comédia. Para Platão, a arte narrativa, assim como a música, tem como principal objetivo afastar os jovens dos vícios e dos maus hábitos e educa-los para a virtude, a moderação e o autodomínio dos quais eles irão necessitar no momento em que serão os futuros guardiões da cidade. Ao levar em contar o fato de que tudo que os cidadãos aprendem desde a mais tenra infância, através do hábito da imitação de tudo que os rodeia, pode influenciar a personalidade e o caráter por toda a sua vida, o ideal platoniano determina que tudo o que pode levar a juventude ao vício, à indolência, à covardia e à crueldade sejam censurados da criação e narração dos mitos, fazendo com que apenas os bons valores éticos e morais que devem reger a sociedade sejam assim transmitidos através da arte. Aristóteles, em sua Poética, se concentra em descrever a poesia como a verdadeira arte da cópia ou imitação da realidade, onde o objetivo do artista é criar ou fantasiar baseado em sua percepção do mundo real, bem como descrever o modo como as poesias e narrativas podem diferenciar-se umas das outras conforme três fatores: o meio (que se dá através do ritmo, do canto e da métrica), o objeto (se pode se caracterizar como tragédia ou comédia) e o modo (que pode ser narrativo, dramático ou um misto dos dois). Aristóteles nos diz que o poder de imitação é inato ao ser humano, o que faz com que os homens tenham prazer ao imitar tudo o que há ao seu redor e assim aprendem e descrevem aos seus semelhantes tudo o que viram e sentiram ao longo da vida, originando assim a criação da poesia, ainda que de forma tosca e improvisada, a fim de suprir a necessidade de transmitir seus conhecimentos e sentimentos. Cada uma das formas de imitação possui diferenças entre si, no qual o objeto da imitação se divide entre a tragédia (que apresenta as ações de homens de grande valor e caráter, exaltando suas virtudes e seus feitos) e a comédia (que apresenta as ações dos homens de baixo valor e caráter, a fim de expor suas falhas e vícios, levando-os ao ridículo). O modo como a poesia imitativa é apresentada também possui variações, que se caracterizam como narrativas (quando a voz do narrador é a que predomina), dramáticas (quando predominam as vozes e ações dos personagens), podendo haver também uma forma mista destes dois modos de imitação, onde a figura do narrador e dos personagens atuam em conjunto. Em contraste com as regras estabelecidas por Platão, a arte imitativa (representada pela tragédia) segundo as ideias aristotélicas tinha como objetivo fazer aflorar as virtudes e os bons sentimentos existentes na alma dos homens através do terror e da piedade causados pela ação dramática, purificando seus espectadores através da catarse. Apesar de algumas diferenças em relação à forma ou à temática das obras, os dois filósofos tinham em comum o conceito de que a arte, mais do que uma simples imitação da realidade, tem a função de ensinar, edificar e reforçar na mente e no coração dos seres humanos os bons sentimentos, as virtudes e os princípios morais que regem o bom funcionamento da sociedade.
    Erwin Panofsky, em seu texto referente aos conceitos estéticos da Antiguidade greco-romana, nos apresenta a ideia de que a obra artística, seja uma pintura ou uma escultura, tem origem não apenas do objeto real que esta obra representa, como também do espírito do artista, no qual esta já se encontra pré-existente. Mais do que apenas imitar ou representar a realidade dos objetos e dos seres, a obra guarda em si a função de trazer à tona os sentimentos mais sublimes do espírito humano; dentro deste conceito, o artista não é mais um mero imitador do mundo real, naquilo que este possui de trivial, nem um simples intérprete sujeito a rígidas normas pré-estabelecidas, mas sim o indivíduo cujo espírito cultiva um modelo prestigioso de beleza para o qual o seu olhar interior está voltado, devendo assim revelar uma beleza o mais próxima possível da perfeição idealizada pelos seus mais sublimes pensamentos, ainda que nem sempre este modelo de perfeição total nem sempre possa ser transmitida à obra no momento da criação. Dentro deste mesmo conceito, a arte e o artista passaram a ser cada vez mais estimados pelas sociedades grega e romana, passando a figurar como personalidades superiores, cujo talento era guiado e protegido pelos deuses, bem como também começaram a ser desenvolvidos e valorizados os conhecimentos dos primeiros críticos da arte. Ainda assim, havia o conceito de Platão onde as “artes miméticas” deveriam estar a serviço do bom, do belo e do virtuoso em detrimento da liberdade e da originalidade artística, tendo como contrapartida o conceito artístico de Filóstrato, onde a arte deveria ter autonomia em relação às aparências e imperfeições da realidade. À medida que se fazia da arte um objeto de reflexão, percebe-se uma contradição da obra de arte em sim: se por um lado ela era inferior à natureza por ser considerada uma simples imitação desta, por outro ela se apresentava como superior à natureza, uma vez que a obra pudesse corrigir as falhas e as imperfeições do mundo real, opondo-se assim de forma independente e gerando uma imagem renovada da beleza, fazendo-a mais verdadeira do que a realidade. Assim, o pensamento da Antiguidade em relação à mimesis era de que o artista não deveria ser apenas um mero copiador da natureza, mas também o seu agente corretivo e criador, podendo exercer seu poder com plena independência.
    Já em seu texto que discorre a respeito dos conceitos artísticos da Idade Média, Panofsky nos apresenta a ideia de que, em cada manifestação do belo, há outra beleza imediatamente superior a esta, de modo que a beleza visível é o reflexo de uma beleza invisível que, por sua vez reflete a absoluta beleza. Na concepção de Santo Agostinho, a arte contempla um tipo de beleza que, longe de pertencer apenas aos objetos e à natureza para posteriormente ser imitada, pertence também ao espírito do artista que transfere esta beleza, para sua obra; mas ao mesmo tempo, esta beleza visível produzida pelo artista é uma parcela da beleza invisível e divina, sendo assim um mediador entre Deus e o mundo material. Este conceito nada mais é do que uma adaptação de Agostinho dos ideais do Neoplatonismo, onde o espírito impessoal deste foi substituído pela visão de Deus instituída pelo Cristianismo, sendo assim decisivo para estabelecer uma concepção de arte que se estenderia para toda a Idade Média. As realizações do espírito humano, que eram legitimadas pela Ideia e justificavam o conhecimento, a conduta e a sensibilidade, eram regidas por um Deus que criou o mundo de acordo com a Sua razão, cuja singularidade própria sobre as diferentes coisas e diferentes essências eram resultantes da consciência e do pensamento divino. Ao mesmo tempo, temos as três questões principais emitidas por Mestre Eckart, sendo também resolvidas por Agostinho: a primeira é saber se as Ideias estão com Deus ou se pré-existem nele as imagens das coisas a serem criadas; a segunda é saber se existem várias Ideias ou apenas uma; e a terceira é saber se Deus só pode conhecer as coisas através das Ideias. Assim, produzir as Ideias, bem como abriga-las tornou-se uma espécie de privilégio divino, onde as imagens produzidas e encerradas em Deus são antes o objeto de uma visão mística do que de um conhecimento lógico ou de uma criação representativa.

Eu voltei... Porque aqui é o meu lugar!



Nossa... Sete meses sem postar uma linhazinha sequer aqui no blog! Pode isso, Arnaldo?
Sim. Em sete meses pode acontecer tanta coisa na vida de um blogueiro ou blogueira, que no final das contas, acaba sobrando história pra contar e faltando tempo, paciência e/ou tranquilidade para refletir, assimilar, pensar e, principalmente, organizar e escrever tantos acontecimentos...
Em sete meses, longe do "sky", despida dos "diamonds", e com a cabeça fora da blogosfera e dentro da vida real, eu:

 - Comecei os preparativos para alçar uma nova trajetória em minha vida, um recomeço de planos pessoais e profissionais. Depois de um mês e meio de estudos, de um mergulho nas esquecidas matérias e lições do Ensino Médio (que na minha época, lááá em priscas eras, se chamava Segundo Grau, Preparação para o Trabalho ou coisa assim), passei no vestibular da UFRGS 2013 e voltei aos bancos da faculdade para cursar Bacharelado em História da Arte. Sim, isso mesmo: uma nova graduação, mas sem esquecer a velha!
 - Vi uma bela e ensolarada manhã de janeiro ser encoberta por uma nuvem de fumaça, cinzas e lágrimas vinda do centro da cidade onde me criei e cresci, passei os melhores (e alguns piores) anos de minha vida... Minha Santa Maria ficou conhecida internacionalmente por conta de uma boate incendiada quase que criminalmente, matando mais de 240 moços e moças que poderiam ser amigos e/ou conhecidos, irmãos, sobrinhos ou filhos nossos... Ou que poderia ser eu, você ou qualquer um que ainda sai à noite pra dançar e se divertir em um lugar que deveria ser confortável e seguro para seus frequentadores!
 - Tive a oportunidade de fazer novos amigos e amigas... E senti a perda de um grande amigo e companheiro peludo, cinza-azulado, travesso e beijoqueiro-mordiscador como só um gato muito querido pode ser. Amigo Joquim, meu "doidinho do pelo azul", esteja agora nos braços de São Francisco de Assis!

E sete meses se passaram... Trazendo com eles a vontade e a necessidade de um "reposicionamento de marca". E como reposicionamento implica em mudanças, que por sua vez, implicam em livrar-se das coisas que não nos servem mais e reformar e reciclar o que ainda poderá nos servir no momento apropriado... Volto aos céus da blogosfera firme e forte, tirando a camada de poeira que até então estava tirando o brilho dos diamantes e também trazendo novas joias para o prazer e deleite de todos os que aqui vem me visitar.
Sejam bem-vindos, amigos e amigas da blogosfera... Que a bodega está aberta novamente!